Globo Esportes

São muitos os clubes de massa no Brasil. Há dezenas deles. As suas diretorias, no entanto, exceto por umas pingadas exceções, cada vez mais raras, costumam seguir os estreitos caminhos do elitismo. O preço dos ingressos e a forma como são tratados os torcedores não sócios, por exemplo, mostram que existe um projeto, às vezes explícito, outras vezes velado, de transformar os clubes (e, logo, o futebol) em algo acessível para poucos. Porque o povo, de uns (muitos) tempos para cá, é encarado como estorvo.

Essa alienação em relação ao seu aspecto popular é um dos traços mais perceptíveis do futebol atual. Os clubes ignoram sem cerimônias o “social” que muitas vezes foi o motivo de fundação, que por mera formalidade talvez ainda carreguem nos seus estatutos. Cada vez mais o negócio soterra história, cultura e “pertencimento” popular. No começo da semana, o presidente do Flamengo, Rodolfo Landim, em entrevista para a Fox Sports, defendendo o retorno do futebol, questionou: “O que estaria errado na volta do futebol? Apenas porque se tem uma curva ascendente?”.

Causa espanto, na declaração que respondia mais do que perguntava, a completa desconexão com o cenário que os brasileiros estão vivendo hoje. Com mil mortes por dia, quase 25 mil óbitos somados, somos o epicentro da pandemia. E o futebol, que há muito já se tornara uma “bolha social”, ignorando qualquer demanda (ou desejo, ou ilusão) das parcelas mais vulneráveis da população, agora pretende se transformar, em meio à tragédia, também em “bolha sanitária”. Colocar todos dentro de uma redoma impermeável, porque a bola tem que rolar e o dinheiro precisa entrar, mesmo que lá fora os corpos sejam empilhados diariamente. Se o futebol brasileiro de elite pudesse, abandonaria o país. O Brasil de verdade dá muito trabalho.

No Rio de Janeiro, Flamengo e Vasco pressionam pelo retorno do Carioca. Menos mal que, pelo menos em meio à pandemia, vários clubes foram picados pelo bom senso: Fluminense e Botafogo são contrários à volta do futebol, assim como os grandes clubes paulistas, que estão dispostos a esperar a liberação das autoridades sanitárias. Aqui em Porto Alegre, Grêmio e Inter seguem treinando e correndo sem saber exatamente para onde. Na Alemanha, o futebol voltou. E voltou de forma melancólica, sem torcida no estádio, e não livre de críticas. Mas o futebol na Alemanha voltou, sobretudo, após semanas de isolamento social e de uma curva de contaminação controlada, assim como se pretende, em maior ou menor prazo, em alguns outros países europeus.

Na Argentina, que hoje apresenta um cenário muito menos trágico que o Brasil, isso nem sequer é discutido seriamente. O Brasil sequer se dedicou a uma quarentena restritiva e agora pretende retomar a vida normal enquanto vários estudos indicam que ainda nem chegamos ao auge da pandemia. Diz para si, cinicamente: “Mas se os outros já estão voltando”. (Se houvesse alguma política pública preventiva, talvez agora pudéssemos estar discutindo, sim, a volta do futebol.)

É um impulso que ignora a realidade pretender retornar com o futebol nas condições em que estamos. É imoral que os clubes testem seus jogadores exaustivamente para que estejam supostamente blindados enquanto seus torcedores sequer podem contar com um leito de UTI disponível, caso sejam infectados.

Imagine que, para entrar no Maracanã, os jogadores cheguem hermeticamente embalados, máscaras até nos cotovelos, driblando um hospital de campanha antes de pisar no gramado. Imagine que, depois de passar noventa minutos correndo em uma realidade paralela, no vestiário eles liguem o celular e se deparem com a manchete: “Brasil registra recorde de mortos por Covid”. Isso seria compreensível apenas como parte da distopia mais atroz. Portanto, pensando bem, é bem possível que aconteça.