Atarde

Com o retorno cada vez mais próximo, as principais equipes do futebol baiano já começaram a se mobilizar nas últimas semanas, visando a retomada da temporada 2020. Em meio a inúmeras incertezas, algumas coisas já são bastante definidas e quase padronizadas, não somente no estado, mas no Brasil e também em todo mundo.

Mesmo com exercícios regulares durante quase todo o isolamento social, muitos jogadores deverão sentir a falta de ritmo causada por conta do longo período sem entrar em campo para uma partida de futebol. A última vez que os atletas de Bahia e Vitória correram por 90 minutos foram nos dias 14 e 15 de março, contra América-RN e River-PI, respectivamente, pela Copa do Nordeste.

“Talvez os aspectos físicos dos atletas possam trazer algum prejuízo técnico ao desempenho dentro dos jogos. O trabalho de preparação física visando a retomada dos atletas ao ritmo normal de competições, certamente fará diferença no momento em que o futebol retorne com suas atividades. O Bahia já retomou seus treinos físicos visando uma preparação adequada para seu elenco de atletas”, avaliou o membro do conselho deliberativo do Esquadrão, Jonatha Gois.

Ainda com um cenário pouco favorável à realização de qualquer atividade que envolva uma possível aglomeração, o martelo já foi batido pelas entidades esportivas quanto a realização das partidas com ‘público zero’. Sem seu décimo segundo jogador, os times irão precisar buscarem incentivos de outras formas quando a bola estiver rolando nos gramados baianos.

“O apoio da torcida do Vitória, como o de qualquer time, é fundamental para energizar quando o time estiver em campo. As vezes o time está apático e a massa rubro-negra funciona como o 12° jogador, empurrando o time no Barradão. Isso gera uma motivação a mais para os jogadores. Então eu acho que a ausência da torcida vai impactar bastante”, ponderou o rubro-negro Felipe Paz.

Torcedora fanática do Esporte Clube Bahia, Mytra Eduarda é daquelas que não perde quase nenhum jogo do Tricolor na Fonte Nova. Segundo ela, a ausência dos adeptos durante as partidas poderá fazer toda a diferença para os clubes.

“Portão fechado faz a diferença para o Bahia, infelizmente. A torcida do Bahia é, literalmente, o décimo segundo jogador, porque empurra o time e ele precisa de seu torcedor. Tem vezes que o Bahia está perdendo e, do nada, surge uma virada que ninguém esperava. Acho que é algo que faz muita diferença”, opinou.

Para complementar a fala de Mytra, o também tricolor Gilson Pereira tentou traduzir em palavras essa energia emanada pelo torcedor e que atinge os jogadores dentro de campo. “Futebol é emoção dentro e fora dos estádios. Jamais um jogador de futebol terá a mesma emoção e entusiasmo em uma partida de futebol com os portões fechados, a vibração do torcedor faz com que qualquer jogador se doe muito mais em qualquer lance com o apoio do torcedor e a paixão pelo seu clube”.

Ao longo de sua história, o Vitória sempre foi bastante reconhecido pelo entusiasmo criado pela torcida dentro do estádio Manoel Barradas. O famoso ‘Caldeirão’, como alguns gostam de chamar. No entanto, os últimos anos do clube fizeram com que essa força desse lugar a um canto mais tímido e adeptos cada vez menos presentes dentro da Toca do Leão.

Para o torcedor e conselheiro do Leão, Eric Oortman, os inúmeros problemas políticos e financeiros vivenciados pelo clube ao longo dos anos terminaram influenciando no resultado do time dentro de campo e, por consequência, na queda dos números de adeptos nos jogos.

“Nos últimos anos estamos passando por um período muito conturbado em nossa história […] A relação ‘Vitória x Torcida’ estremeceu e muito. Esse ano temos tudo para competir de forma íntegra pelo acesso. Nossa torcida estará de casa, ausente, mas jamais irá abandonar o nosso clube. Vamos conseguir sair dessa e nossos resultados dentro de campo poderão nos levar à melhores lugares”, projetou.

Também conselheiro do Vitória, Lucas Rios apontou um outro aspecto que vai mais além do que somente ter o apoio do seu torcedor nos jogos como mandante. Na atual situação do clube, que já não atravessava uma saúde financeira muito favorável, a chegada da pandemia trouxe um agravante ainda maior aos cofres.

“O Vitória vinha tendo um crescimento bom no quadro associativo antes da pandemia, o que mostrava uma tendência de mais torcedores no estádio, algo que ajudaria nesse momento que o clube passa na busca por novas receitas importantes e não teremos mais essa possibilidade. Além do prejuízo em campo pela falta de apoio do torcedor aos atletas durante o jogo, vamos perder a possibilidade de arrecadação”, pontuou Lucas.

Em detrimento dessa difícil realidade vivida pela dupla Ba-Vi, muito tem se questionado a respeito do melhor planejamento atualmente para os clubes. Com boa parte do calendário comprometido pela pandemia, a duvida que paira na cabeça dos torcedores é se ainda vale a pena almejar ‘vôos mais altos’ para ambos os clubes em 2020 após o retorno das competições, ou se o melhor a decisão neste momento seria ‘passar a borracha’ e começar a projetar o ano de 2021.

“Com o cenário atual a alternativa mais correta seria ‘passar a bola’ pra 2021, porém não é totalmente fácil para ajustar um ano em outro. Por conta disso, creio que a melhor solução seja reduzir o tempo normal dos campeonatos para os meses do ano que vão restar se caso voltarmos esse ano”, sugeriu a torcedora do Bahia, Eduarda Neves.

De acordo com Jonatha Gois, mesmo sem o apoio de sua torcida e com a organização dos torneios comprometidas, ainda é possível o Bahia pensar positivo para a atual temporada. “Não diria que o ano acabou, mas dificilmente teremos futebol aberto ao público. Se confirmando o provável retorno das competições que foram interrompidas e fazem parte do primeiro semestre do calendário esportivo, o Bahia certamente terá como foco as suas conquistas, estamos nos referindo ao Campeonato Baiano e Copa do Nordeste”.

Apesar de ser torcedora do Vitória, Ananda Borges fez uma projeção mais geral acerca do que ela acredita que deva ser o futuro do futebol na Bahia. Segundo ela, as medidas de interrupção dos campeonatos e a não adoção de público nas partidas também contribuíram para que o estado não vivesse uma situação mais grave mediante a pandemia.

“Acredito que inicialmente teremos um certo distanciamento com o futebol, por se tratar de um esporte de muito contato. Então podemos demorar para que voltemos a ver os estádios cheios. Felizmente, não aconteceu um colapso do sistema de saúde na Bahia, como vemos em outros estados. Fora precauções contra a Covid, não imagino grandes mudanças e espero que tudo volte ao normal o mais rápido possível”, finalizou.

Em meio a tantas questões, a exata noção de futuro do futebol baiano ainda segue sendo um pouco incerta no imaginário dos torcedores. A pandemia resultou em sequelas, principalmente aos clubes do interior, que dificilmente serão resolvidas rapidamente. No entanto, a única certeza existente para muitos adeptos está na saudade em ver seu time do coração entrar em campo.