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Pia Sundhage assumiu a seleção brasileira depois da Copa do Mundo de 2019, uma eliminação para a França ainda nas oitavas que acabou encerrando a passagem de Vadão no comando da seleção feminina. Desde então, a vitoriosa treinadora sueca mudou a forma como as jogadoras brasileiras entendem e executam o jogo, buscando sempre a excelência, mas com uma cara mais brasileira que nunca. Ricardo Pombo Sales, que faz parte do dia a dia dessa mudança de panorama, nos ajuda a dissecar a nova cara da seleção após o primeiro ano completo de Pia no comando do time.

Na seleção desde 2012, Ricardo trabalhou como analista de desempenho com três técnicos: Márcio de Oliveira, Vadão e agora a Pia. O analista viu com empolgação a chegada de uma treinadora “multicampeã”, que “conhece o caminho do ouro mais do que ninguém”.

Ricardo nos ajuda a mostrar o que mudou na seleção na transição entre o trabalho de Vadão e o novo projeto com Sundhage. O Brasil abriu mão de um “jogo direto”, com ataques rápidos e contra-ataques e ligação direta para retomar o controle da bola em uma proposta de jogo com ataques posicionais. “Em termos de modelo de jogo, o Vadão trabalhava com um jogo direto, com bola em transferência, em jogo de ataque rápido, ataque direto. A Pia é um jogo totalmente apoiado. Ela trabalha muito apoio e suporte o tempo inteiro, mas não descarta a velocidade e a verticalidade quando tem a oportunidade. Mas toda a construção é pautada em apoio e suporte. E mudou muito a caracterização do uso dos corredores. O Vadão gostava muito de ultrapassagens, e ela trabalha sustentando mais a posição das jogadoras. Apesar de não ser caracterizado por um jogo de posição mesmo, já que é mais de apoios, com criações de linha de passe, jogar entre linhas. No masculino tem a presença do terceiro homem, aqui a gente chama de ‘terceira mina’, começa a dissecar Ricardo sobre as mudanças na filosofia de jogo.

“O Vadão não gostava muito de jogo interno, que pudesse perder a bola na construção. Ele fazia muito mais pelos corredores laterais, com bola em transferência (lançamentos). A Pia gosta de trabalhar em qualquer setor do campo, esse jogo interno nosso ela vê como o estilo brasileiro de jogar, o que a gente mais sabe, que é essa habilidade de jogar entre os espaços, com muita técnica”, completou.

O jogo posicional ficou marcado recentemente no Brasil pelo fracasso de Doménech Torrent no Flamengo. O Rubro-Negro aplicou, muitas vezes, o muitas vezes criticado tiki-taka, tão odiado por Pep Guardiola, mentor de Torrent. Mas Ricardo Sales explica que a busca por ataques apoiados não necessariamente tira a velocidade do jogo.

“Apesar de ser um jogo em que você fica criando essas linhas de passe, procurando pequenos espaços, quando você tem a possibilidade de dar a velocidade, você dá. A maioria das chances de gol que a gente tem, apesar do início ser com passes curtos, a gente consegue ter mudança de corredor e verticalização do jogo. Objetividade. É só uma questão de achar o espaço. Não é só aquele jogo de só circular a bola. O jogo posicional não tira a objetividade”, explicou.

Campeã olímpica por Suécia e Estados Unidos, Pia nunca escondeu a admiração pelo futebol brasileiro. Ricardo vê o trabalho da sueca como a oportunidade de unir técnica e criatividade com compreensão tática do jogo.

“É um assunto que está gerando certa polêmica. Até o Jorge Jesus falou que veio da melhor liga do mundo. E eu tenho escutado de diversos treinadores estrangeiros que o Brasil tem os melhores atletas do mundo. A Pia quando chegou, falou: “Eu tive excelentes atletas, espetaculares nos Estados Unidos, na Suécia, mas igual a atleta brasileira não existe. Ela tem uma habilidade, facilidade de decisões em curto espaço”. O que precisa é ensinar e aumentar essa possibilidade de entender e executar o jogo coletivo. Talvez a gente não tivesse tanta ênfase ao jogo coletivo nos últimos anos. Agora a gente está aprendendo várias formas de jogar, de defender, de atacar, de entender o jogo. Estamos no processo de entender mais o jogo, e isso dá clareza ao atleta, que consegue enxergar em campo mais possibilidades. Não digo nem que a gente está resgatando isso, digo que estamos aprendendo”, revelou.